Acordei com o Adam Sandler na minha janela

Acordei com Adam Sandler na minha janela. Nada é ”meia-boca” em Nova York.
Minha janela fica no primeiro andar de um velho prédio de Manhattan. A janela deve ter pelo menos uns 70 anos de idade, está há muito tempo neste mundo, mas é um luxo ! Não a arquitetura nem nada… Mas simplesmente o fato de existir (a janela). É que um quarto com luz natural é um privilégio nesta cidade.

Hoje, como sempre, acordei e dei um puxão na cortina para ver como estava o dia. Se tinha sol, neve, chuva.. Essas coisas. Tinha uma movimentação incomum. A rua estava bloqueada. Bem em frente ao prédio tinha um homem moreno, junto com outros, de uniforme preto. Todos eles olhavam e instalavam um tipo de equipamento em um carro velho.

Pensei: terrorismo. Algum FDP deixou uma mochila velha dentro deste carro. É certo que esta galera é do esquadrão antibombas e, daqui a pouco, nenhum de nós vai estar aqui para falar sobre a janela de 70 anos de idade ou qualquer coisa que o valha. Mas não era isso.

Pensei: se não é suspeita de terrorismo, tem alguém desmaiado lá dentro deste carro. Lembrem-se, em Nova York nada é meia-boca. Ou é tragédia ou é euforia. A penúltima vez que fecharam uma rua próxima a minha foi por causa de um prédio que desmoronou. Mas também não era isso.

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Pensei: então só pode ser cinema. A última vez que fecharam uma rua próxima a minha foi por causa da gravação de um filme.

Não tinha leite na geladeira. Joguei um casaco por cima do pijama e fui até a cafeteria que fica do outro lado da rua. Na porta do prédio, um segurança de dois metros de altura. Dei um bom dia, senhor! atravessado e cruzei em frente ao carro velho. Podia jurar que tinha cruzado com o Adam Sandler no caminho… Mas pensei que jamais seria o Adam Sandler.

Segui para o café. 

Este café é como um destes botecos de esquina do Brasil. Todas as fofocas do bairro rolam ali. Descobri que aquilo tudo era mesmo a gravação de um filme que ninguém sabia o nome. Perguntei quem era o ator. Uma mulher que fazia parte da equipe de produção respondeu: é Adam Sandler, mas se você tirar foto ou contar que eu falei, eu te mato. Sutil.

Eu, então, peguei o café , atravessei a rua correndo, passei de novo (de pijama) pelo Adam Sandler, tirei uma foto meio escondida, continuei correndo, passei pelo segurança simpático e entrei no edifício. 

Assisti da janela ao senhor Sandler repetindo a mesma manobra, uma baliza, por umas duas horas.

Tomei café, tomei banho, sequei o cabelo, experimentei uma roupa, não gostei da roupa, troquei de roupa, escovei os dentes, tirei o lixo, troquei mais uma vez de roupa e ele ali, ainda em frente à janela, trabalhando na baliza.

Sentei para escrever este texto e o Adam Sandler continuava na baliza. Sai de casa, segui com minha vida de jornalista, passei pela terceira vez em um só dia pelo Adam Sandler, que seguiu a vida dele de ator e fazendo a baliza. Deve ter sido um dia daqueles no trabalho do Sandler.

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Candice Carvalho

Candice Carvalho vive em NY desde 2008. É jornalista, faz parte da equipe da Globo News nos EUA e estuda Relações Internacionais na Universidade de Nova York.

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