Sobre bicicletas e cerejeiras: o triunfo de pedalar em uma Nova York florida

Depois de três cervejas e dois shots, eu fiz a promessa: se eu continuar em Nova York, vou comprar uma bicicleta. Eu já morava na cidade há mais de um ano, mas ainda num estilo semi nova-iorquino. Eu alugava um quarto em um apartamento que não era meu e não tinha muito mais do que uns freelas aqui e ali pra fazer uma grana.

A promessa da bicicleta se repetia. Era bobo, mas eu sentia que comprar uma bike seria o decreto: “daqui, não saio”. Só faltava ter uma vitória suficientemente boa para legitimar a recompensa. As pessoas que moram aqui sempre falam que moradia, trabalho e relacionamento são a tríade dificílima de se atingir nesta cidade. Conquistar e conciliar os três não é fácil. Sempre tem um perrengue. Tem gente bem empregada e bem relacionada que tem que sair do apartamento às pressas quando o preço do aluguel vai às alturas. Tem gente que tem casa e marido e não tem trabalho. Gente que tem tudo, e que daria de tudo para encontrar o amor que sonha. E tem gente que vai embora antes de conseguir completar o trio.

Eu sentia que comprar uma bicicleta seria o decreto: “daqui, não saio”.

Em fevereiro deste ano, eu me mudei. Era a última perna do tripé que me faltava. Moro em Hells Kitchen, a pouco mais de uma quadra do rio. Quando a primavera chegou, a bicicleta não poderia deixar de vir junto. Pedalar cercada por uma Nova York florida seria o meu triunfo ao lado da companheira de duas rodas que eu tanto me prometia. No trabalho, sugeri que mostrássemos as cerejeiras nas imagens que encerram o programa Manhattan Connection. Minha ideia era filmar a Cherry Walk, uma estrada para ciclistas, corredores e pedestres que fica na beira do rio Hudson era um lugar que eu conhecia, mas ainda não tinha visto em flores.

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Cerejeiras floridas na beira do Hudson River em 22 de abril de 2016 / Carol Matzenbacher

Esse era o pretexto perfeito para comprar a minha bicicleta, que eu já tinha até escolhido depois de muitas pesquisas suspirosas na internet. Assim que a bike chegou, minha missão virou pedalar, de tempos em tempos, da minha casa até a rua 125 para monitorar o florescimento das cerejeiras – em pouco mais de uma semana, as flores secam e cobrem o chão. Você confere as imagens que foram ao ar no programa no vídeo a seguir:

 


Cherry Walk

Na beira do rio Hudson, existe um parque que vai da rua 72 até a 158 chamado Riverside Park. O parque é uma área verde linda, com ciclovias, pistas de corrida, quadras de tênis, futebol americano, churrasqueiras. Tudo de frente para o rio. No verão, é muito comum ver os nova-iorquinos frequentando a área como se estivessem na praia: tomam sol, remam caiaques e arriscam até um stand up paddle nas águas que separam Nova York e Nova Jersey. Você vê de tudo no Riverside Park (clique aqui para saber mais). Dentro dessa área verde, quando você chega na altura da rua 100, o caminho fica mais colorido se você estiver na época certa.

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A Cherry Walk é uma estradinha que vai da rua 100 até a 125. Lá é possível encontrar algumas cerejeiras remanescentes de uma leva de árvores que vieram do Japão em 1909 em um ano de comemorações: era centenário do barco a vapor, inventado por Robert Fulton, e tricentenário das explorações de Henry Hudson que levaram a descoberta e batismo do rio que banha o oeste de Manhattan. Dois sobrenomes de peso na história da cidade. Das duas mil cerejeiras presenteadas pelos japoneses, 700 foram parar na Cherry Walk, mas somente em 1930. As sobreviventes continuam lá, espalhadas no trajeto de 2,3 quilômetros.

Cherry Walk by Carol Matzenbacher

Dá pra ir a pé ou pra alugar uma bicicleta. Como eu disse antes, é preciso estar na época certa para ver as cerejeiras em flor. Uma boa dica é ficar de olho no Instagram com a hasgtag #cherrywalknyc ou similares. Sempre tem alguém que registra o caminho quando começa a florescer. Mas esta aqui é uma dica para o ano que vem. Este ano, as cerejeiras já se despediram, trocaram o branco rosado por folhas verdes, da cor do verão. Mas de despedida, isso aqui não tem nada. Esse foi só o começo – pra mim e pra nova bicicleta.

 

No mapa, confira o trajeto da Cherry Walk:

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Carol Matzenbacher

Já morou em Indiana e Nova York, mas nunca perdeu o sotaque porto-alegrense e o bom humor. Em pouco mais de dois anos na cidade como jornalista freelancer, a Carol descobriu centenas de estranhos e desenvolveu mil e uma habilidades. Não necessariamente nessa ordem, ela é daquelas que produz, apura, filma, edita, desenha, anima e finaliza com uma pirueta tripla e um solo no violão. Você acompanha o trabalho dela por aqui, ou aos domingos, no programa Manhattan Connection.

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