Qual a melhor estação para conhecer Nova York?

Os quatro correspondentes do NYlikealocal compartilham aqui seus amores por Nova York em diferentes estações. Qual a sua favorita?

Primavera

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Manhattan vista do Liberty State Park. Foto: Artur Gelumbauskas

por Artur Gelumbauskas

“Primavera traz nova vida a todas as coisas”

Essa frase é de um jogo antigo que se passava no inverno congelante do Alaska. Quando me mudei para Nova York era inverno e, passado o entusiasmo inicial, percebi que o frio toma conta de tudo, é sério, é mais do que uma temperatura insuportável: o frio cala. Até que um dia, no meio de fevereiro, os constantes 0ºC passaram para agradáveis 16ºC bem quando eu precisei sair mais cedo do trabalho para abrir uma conta corrente no banco. Ao sair na rua, eu não tremia nem corria de um lado pro outro, nem ninguém mais. As pessoas olhavam em todas as direções e sorriam umas para as outras. O sol voltava a esquentar a pele. No banco, entre um abrir de gavetas e outro, a gerente voltava sua atenção a mim após se perder olhando pela parede de vidro. “Mas é que está tão lindo o dia!” Eu, que geralmente sou tão sério nessas horas, nem liguei.
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Pôr do sol no jardim do Brookfield Place. Foto: Artur Gelumbauskas
Quem não vivencia as quatro estações tem dificuldade em entender o significado da primavera. Mas em NY, ele se torna claro: pessoas lotam os parques, festivais de música e de arte começam e feiras de comida fecham ruas aos feriados. E os locais, diferentemente dos turistas que nunca viram neve na vida, deixam o Netflix e saem de casa para aproveitar o dia. E que venham então as paradas de St. Patrick’s Day, as de Cinco de Mayo, a guerra de travesseiros do Washington Square Park, o Smorgasburg no Brooklyn, as corridas de um cinema para o outro do Tribeca Film Festival, a Tribeca Street Fair, as festas nos barcos, a luta por uma grelha para fazer churrasco no Brooklyn Bridge Park, as cerejeiras nos do Jardim Botânico do Brooklyn, a Meia Maratona! Mesmo que nada disso venha, não importa: está mais quente, mesmo! Vamos tomar uma nas mesinhas do lado de fora do Felix ou do Novecento, no Soho, e assistir a um jogo da Champions League?
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Festival de cerejeiras no Jardim Botânico do Brooklyn em 2016. Foto: Carol Matzenbacher

É na favorita das minhas estações que percebemos como NY não para. É com sua chegada que a cidade renasce, que acende essa chama dentro de nós: primavera traz nova vida a todas as coisas.


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 Verão

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Foto: Artur Gelumbauskas

por Gabriele Branco

Eu sei, calor de 40ºC é quase insuportável. Eu sei, a gente fica esperando o metrô chegar para pelo menos bater um ventinho na estação. Mas a primeira vez que pisei em Manhattan foi em julho. A segunda, em agosto. Eu odeio o calor em Porto Alegre, por mais que ele seja tão abafado quanto o da ilha, mas aqui… o calor vem acompanhado de shows na rua, poder andar a pé, ficar em meio às árvores dos diversos parques, gente tomando sol de biquíni no mesmo lugar em que alguns comem uma salada no seu intervalo de almoço.

Os trens da linha amarela vêm com cheiro de maresia, isopores e guarda-sóis dos farofeiros que aproveitam o sol para visitar Coney Island. As pessoas sorriem. A primeira impressão que eu tive de Nova York foi essa: não importa onde vivem, como vivem, mas vivem sorrindo. Por quê? Porque minha estreia em NY foi no verão, quando os instrumentos tocam mais alto, as flores ainda pululam a cidade e biquínis fazem parte do dress code nos parques e até mesmo na rua, onde restaurantes encontram novo abrigo para mesas, cadeiras e clientes faceiros, vivendo tudo o que o calor oferece ao CEP 10 mil e pouco.

Foto: Gabriele Branco
Foto: Emily Cheng / Divulgação

É em julho que o MoMA oferece shows em seu jardim, tão frio e pouco receptivo no inverno, e que o Central Park apresenta Shakespeare gratuitamente para seus visitantes. Não se engane, Nova York me tem, sempre. Mas quando o termômetro passa dos tais 70 Fahrenheit, aí, meu amigo… me entrego.


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Outono

Foto: Carol Matzenbacher
Foto: Carol Matzenbacher

por Carol Matzenbacher

O outono é a melhor estação para se apaixonar por Nova York. Aliás, nem sei por que estamos debatendo este assunto! No verão, os termômetros da cidade chegam a marcar mais de quarenta graus. O inverno é lindo em fotos depois da neve, mas você já viu como ficam as ruas quando o gelo começa a derreter? E, claro, a falsa impressão da primavera, essa danada, que dura pouquíssimos dias. Tudo fica colorido e, quando você decide finalmente tirar uma foto, as flores estão todas nos chãos. Se você quer vir a Nova York, venha no outono.

A magia começa em setembro, quando você caminha pela cidade e percebe que bares, cafeterias e supermercados vendem produtos feitos com abóboras. Dessas grandes, que a gente vê em filmes, geralmente cravejadas com o semblante de Jack O’Lantern. Para beber, o cardápio também muda: o café mais famoso da estação é o pumpking spice latte, e as cervejas de abóbora são facilmente encontradas. Assim, gradualmente, você começa a ver a cidade mudar na sua frente.

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O Central Park na estação mais colorida do ano. Foto: Carol Matzenbacher

Se, na última semana, tiramos o Central Park da lista de áreas verdes que mais gostamos na cidade, é porque não falamos do outono. O parque é o melhor lugar para sentir a estação.  Lá você vê de perto as árvores, em sinfonia, ganhando uma paleta de tons vibrantes, que vai do verde ao vermelho. É encantador apreciar as folhas das árvores exibindo suas cores mais lindas para um momento de despedida. Uma apoteose longa, que nos prende e nos contagia por, no mínimo, um mês completo. Aliás, esse é um dos maiores pontos favoráveis do outono: você, de fato, sente a estação passar. E, pra ver a estação passar, gosto de fazer ao menos um brunch no The Loeb Boathouse, pra sentar de frente para esta vista encantadora:

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Vista do restaurante The Loeb Boathouse durante o outono. Foto: Carol Matzenbacher

No final de outubro, a cidade fica toda colorida para um grande Carnaval de rua, o Halloween. As áreas mais residenciais ficam todas enfeitadas. No Upper East Side, experimente dar um pulo na rua 92 entre as avenidas Madison e Park. Aqui neste link, você confere as ruas locais mais enfeitadas para o feriado de 31 de outubro.

Durante a estação, que vai de 23 de setembro a 21 de dezembro, também é legal apostar nos arredores da cidade. No outono de 2013, eu e meu pai fizemos uma road trip pela Nova Inglaterra – composta por seis estados do nordeste americano: Massachusetts, Connecticut, Rhode Island, Vermont, New Hampshire e Maine. É lindíssimo!

Outra dica é conhecer o parque Storm King, um museu a céu aberto localizado no norte de Nova York onde esculturas se conectam com a natureza (recomendo este vídeo para entender do que se trata o parque).
A estação é apaixonante. Era outono quando me mudei para Nova York e fui recebida pela cidade mais linda que conheci. Foi amor a primeira vista. Meu coração sempre bate mais forte ao lembrar e descrever a magia da estação. Sempre que o outono chega, tudo o que eu quero é viver Nova York de novo. Como se fosse da primeira vez.


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Inverno

IMG_0312por Candice Carvalho

O inverno é uma merda, mas é bom. Não, a frase não é minha. A frase também não é bem assim, é mais ou menos assim. Será que, por ser mais ou menos assim, a frase acima, a nova frase, pode ser considerada um não-plágio? Pouco importa. Neste caso, vamos nos prender ao sentido. Foi Tom Jobim quem, certa vez, teria dito que morar nos EUA é bom, mas é uma merda e morar no Brasil é uma merda, mas é bom. Pois bem, o mesmo vale para o frio em Nova York. É uma merda, mas é bom.

O encantamento pelo inverno não se explica com palavras. Para entendê-lo, é preciso captar as entrelinhas deste texto, assim como para amar o inverno nova-iorquino é preciso captar as suas entrelinhas. Se isso for possível, pode ser uma maravilha, já que não há argumento plausível. Sempre perco esta discussão para amigos. No inverno, anoitece cedo, antes das cinco da tarde, o vento dói, a vaidade é derrotada por casacos de esquimó monstruosos, você engorda, você tem menos vida social, você se acostuma a andar num dia pulando as montanhas de neve acumuladas nas calçadas, noutro em zigue-zague, desviando das ex-montanhas que se transformaram em barro, lama! E você SEMPRE perde a luva preferida no táxi.

No entanto, no inverno há a neve e é importante não subestimar a magia da neve. Quem imagina que é possível passar um dia de neve na praia? Sei que devo estar perdendo a discussão novamente. Desta vez para você, que neste instante lê este texto com descrença. Mas um instante tem apenas o tempo de um pensamento e ainda há esperança de espalhar o gosto pelas belezas invernais. De novo, não é para explicar, é para olhar. Olhar a areia que encontra neve, o sol vermelho que cai sobre o mar de um azul gelado. Na praia, a gente consegue enxergar o frio. Só que na praia o frio, de tão belo, esquenta.

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Rockaway após tempestade de neve em 2016. Foto: Candice Carvalho

Entre minhas memórias invernais está uma tarde de janeiro. Neste dia, pais andavam de trenó com seus filhos no Central Park e vizinhos faziam guerra de neve. Havia um homem andando de esqui na 1st Avenue e nova-iorquinos calmos em vez de apressados. Também pudera, escolas cancelaram as aulas, escritórios encerraram o expediente. Quando a neve chega de jeito, não resta muito a fazer, a não ser deixar tudo para amanhã. A neve é o único fenômeno natural frequente e comum capaz de parar Nova York. Se a cidade para, a gente para junto com ela e presta atenção nas coisas simples, como acordar com a cidade branquinha depois da primeira neve do ano. Já falei sobre isso aqui.

Há um encanto nisso, há um encanto completamente irracional sobre isso.

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NY Like a Local

Somos quatro brasileiros compartilhando a experiência de viver em Nova York. Todos os dias, descobrimos algo novo nesta cidade. Vamos ajudar você a não perder tempo com dicas furadas, para viver a cidade do jeito que ela deve ser. Como um local. Like a local!

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